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26/07/2026

Master fez limpa de R$ 5,7 bilhões antes da liquidação, mostram documentos

O Banco Master repassou R$ 5,7 bilhões em créditos que tinham sido detectados como atípicos pelo Banco Central meses antes, mostra documentação apresentada pelo liquidante na Justiça. (Por Natália Portinari) - foto reprodução -

As operações que permitiram essa manobra contábil constam em uma lista enviada pelo liquidante à Justiça, em um processo que busca reaver bens do banco.

Os créditos foram repassados a fundos de investimento e ao BRB (Banco de Brasília) entre junho e agosto de 2025. Todos saíram do balanço antes do prazo de 60 dias que antecede a liquidação, fixado em 19 de setembro.

Esse prazo, chamado de "termo legal", é a data a partir da qual a legislação de falências permite anular operações feitas para prejudicar credores. Repasses anteriores a ele só podem ser desfeitos com ações judiciais.

Os R$ 5,7 bilhões correspondem a 16 empréstimos que a fiscalização do BC já havia apontado como atípicos em agosto de 2024 e envolvem fundos ligados ao banco, como o D Mais e o Bravo.

Na avaliação do BC, os empréstimos não tinham função real de crédito. O cliente tomava um valor alto e aplicava o dinheiro, de forma compulsória, em um fundo do próprio grupo.

Procurado, o Banco Master não respondeu.

Cessão de créditos

Uma cessão de crédito é quando uma instituição financeira compra de outra o direito de cobrar uma dívida. Foi o que ocorreu com os R$ 5,7 bilhões em créditos logo antes da liquidação.

Em alguns casos, esses créditos foram cedidos a "partes relacionadas" —empresas do mesmo grupo econômico, como fundos do próprio Master—, o que viola a lei que rege o Sistema Financeiro Nacional.

Ao retirar esses créditos do balanço, o banco de Daniel Vorcaro dificultava o rastreamento do dinheiro, o que a Polícia Federal descreve como "pulverização e reempacotamento de ativos".

A maior parte da limpa —R$ 2,9 bilhões— passou pelo Máxima 2, fundo do próprio Master. Os créditos foram transferidos ao fundo em agosto de 2025 e resgatados dele em outubro, já perto da liquidação.

Outro R$ 1,6 bilhão foi repassado a três fundos ligados à Reag Investimentos, gestora investigada por suspeita de elo com o PCC e com o Master. Nesses casos, os fundos nem chegaram a pagar pela cessão, segundo a lista do liquidante.

Duas das operações têm o mesmo valor: R$ 468,8 milhões. Foram tomadas pela BMQ Mirage, uma importadora, e pela Daus, uma indústria de laticínios, com dois dias de diferença, e, segundo o BC, são potencialmente fictícias, com o objetivo de desviar dinheiro do banco.

Procurada, a Reag disse que não iria comentar.

O restante —cerca de R$ 1 bilhão— foi vendido ao BRB. O banco público cobra agora do liquidante o repasse de aproximadamente R$ 4 bilhões referentes às carteiras compradas do Master.

O BRB disse à reportagem que "os ativos mencionados foram recebidos pela gestão anterior no contexto de negociação de ativos junto ao Banco Master".

"A nova administração do Banco vem adotando todas as medidas necessárias para o tratamento desses ativos, em conformidade com seus processos internos e com as exigências regulatórias aplicáveis."

Indústria de empréstimos
Os R$ 5,7 bilhões fazem parte de uma lista maior. Ao todo, o liquidante relacionou 112 operações de crédito que o Master cedeu a terceiros, somando R$ 10,2 bilhões.

O maior tomador de empréstimos da lista é a Lormont Participações, com 18 operações desde 2022, no total de R$ 1,18 bilhão. A empresa é controlada por Nelson Tanure, investigado sob a suspeita de ser sócio oculto do Master.

Tanure nega ser controlador do Master. Em nota, o empresário disse que "na sua atividade profissional, sempre que precisou, por meio de seus veículos de investimentos, tomou empréstimos de instituições financeiras em que foi ou segue sendo cliente".

Segundo ele, esses créditos, contudo, sempre foram regularmente quitados e ele desconhece qualquer cessão que o Master tenha feito.

O destino das cessões varia. Os créditos foram para fundos do próprio Master, fundos ligados à Reag e outros bancos, como o BRB e o Voiter.

Isso acontece porque o objetivo ao fazer essas cessões nem sempre é o mesmo. Em alguns casos os empréstimos são ruins e foram parar na conta do BRB, um banco público para injetar recursos no Master.

Em outros casos, os créditos são bons, mas foram cedidos às partes relacionadas, enquanto o Master recebia em troca um ativo podre.

É o caso de empréstimos de R$ 336 milhões aos executivos da Biomm, empresa de biotecnologia, cedidos em maio de 2024 ao Banco Voiter —adquirido dois meses antes, em fevereiro, pelo próprio Master.

A Biomm tem como fundador o empresário mineiro e ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, que diz ter usado o dinheiro para comprar ações e aumentar o capital da firma, que estava construindo uma fábrica de insulina.

A fábrica foi inaugurada em abril de 2024. Procurado, Mares Guia disse ao UOL que a dívida vence apenas em 2029. Hoje, ela está com o Banco Pleno —uma cisão do Master, liquidado em fevereiro de 2026.

"Naquele momento [do empréstimo] o Banco Master não estava sob suspeita de nada. Como eu tinha condições de crédito, consegui um empréstimo", afirmou.

A lista de empréstimos cedidos inclui ainda um de R$ 5,5 milhões a Isaac Sidney, presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos). De acordo com Sidney e com registros na escritura e matrícula do imóvel, trata-se de um financiamento imobiliário.

Esse crédito, junto a R$ 23 milhões de outros devedores, teria sido cedido à Urbaniza Empreendimentos e Participações, segundo a contabilidade do Master. A empresa pertence a Aroldo Rodrigues da Silva, corretor imobiliário mineiro com histórico de negócios com a família Vorcaro.

A data da cessão, porém, é 29 de dezembro de 2021 —mesmo dia em que Sidney diz ter quitado sua dívida, na época já cedida a outra empresa, chamada Cannes Consultoria, ligada ao Master.

Dessa forma, o crédito não poderia ter sido cedido por R$ 6,1 milhões (valor com juros) à Urbaniza, como consta na documentação do banco.

"Consta da lista que está nos autos que a operação teria sido objeto de cessão para a empresa Urbaniza. Ocorre que, até a publicação da notícia pela imprensa, eu não tinha a mínima noção de que a operação teria sido —se é que foi— cedida para a Urbaniza", diz Sidney.

A cessão de crédito não depende da anuência do devedor, pontua o presidente da Febraban.

"Posso assegurar que não há e nunca houve qualquer relacionamento, seja comercial, societário, financeiro ou pessoal, com a empresa Urbaniza, seus controladores ou administradores."

"A única cessão de que tomei conhecimento, e apenas no momento da quitação, foi para a empresa Cannes Consultoria Empresarial e Administração Ltda, perante a qual se deu a quitação por se tratar do novo credor."

Fontes ligadas à investigação, ouvidas pelo UOL, suspeitam que o registro da cessão possa ser fictício, como uma forma de justificar um repasse da Urbaniza para o Master, por exemplo.

Liquidante pediu sigilo
Após a repercussão sobre alguns dos empréstimos, o escritório que representa o liquidante disse à Justiça que "alguns dos terceiros referidos no relatório de cessões vêm prestando informações e esclarecimentos a respeito das respectivas operações" e pediu sigilo sobre o processo.

Isaac Sidney, da Febraban, diz ter prestado esses esclarecimentos após descobrir seu crédito incluído na lista de cessões.

"Não foi possível obter informações sobre se a cessão foi iniciativa do antigo ou novo credor, se apenas uma ou mais empresas cessionárias, nem se a cessão se deu para fins lícitos, como, por exemplo, necessidade de liquidez ou alguma exigência regulatória", diz, em nota ao UOL.

"Muito menos tenho condições de afirmar se a cessão ocorreu para fins ilícitos, como simular entrada de caixa, inflar balanço ou desviar recursos, na medida em que o devedor não precisa anuir a cessões de carteiras." (Fonte: UOL)

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